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Autópsia em mortos por COVID-19 ajuda no tratamento de casos graves da doença.

A tomografia computadorizada do tórax mostra sinais de pneumonia viral (ramificações esbranquiçadas) (imagem: Departamento de Patologia/FM-USP)


Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) estão realizando, por meio de procedimentos minimamente invasivos, a autópsia de corpos de pacientes diagnosticados com COVID-19 que faleceram no Hospital das Clínicas da instituição.

Um dos objetivos do trabalho é coletar e avaliar rapidamente amostras de tecidos pulmonares e de outros órgãos com o intuito de disponibilizar informações que possam ser úteis à comunidade médica do país para tratar os casos graves da doença.

"Estamos compartilhando os resultados preliminares das análises com a equipe médica do Hospital das Clínicas e de outras instituições antes mesmo de publicarmos em revistas científicas, com o objetivo de que os dados possam ajudar no tratamento dos pacientes atualmente internados", diz à Agência FAPESP Marisa Dolhnikoff, professora da FM-USP e coordenadora do estudo que faz parte de um projeto apoiado pela FAPESP.

A ideia dos pesquisadores é correlacionar as constatações que estão obtendo com exames de imagem (tomografias) e com as observações feitas por médicos clínicos ao tratar os pacientes em estado grave.

Dessa forma será possível avaliar se um paciente que ficou mais tempo internado apresenta outras alterações no pulmão ou se as diferentes formas de ventilação mecânica às quais são submetidos em unidades de terapia intensiva (UTIs) causam alterações diferentes no órgão.

"Essa correlação representa um passo fundamental desse estudo porque podem existir diferentes perfis tomográficos, patológicos e clínicos da COVID-19", pondera Dolhnikoff.

"Quando começamos a liberar os dados, fomos imediatamente contatados por clínicos dizendo que as tomografias dos pacientes que estão analisando nos hospitais não são todas iguais. Isso levantou a questão de que pode haver mais de um padrão de comprometimento pulmonar pela doença, por exemplo", aponta a pesquisadora.

Foram feitas, até o momento (03 de abril), seis autópsias de pacientes que morreram por COVID-19, com o consentimento das famílias.

O plano é realizar, no total, entre 20 e 30 procedimentos, que são guiados por um aparelho de ultrassom portátil e utilizadas agulhas, como as usadas em biópsias em pessoas vivas, para ter acesso aos órgãos internos e coletar amostras de tecidos, sem a necessidade de abrir o corpo (leia mais em agencia.fapesp.br/32774/).

Os quatro primeiros casos analisados foram de dois homens e uma mulher, com idade acima de 60 anos e histórico de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, e de outro paciente mais jovem, também com doenças preexistentes. Em comum, a evolução da doença nos quatro casos foi muito rápida – entre quatro e 10 dias.

Os resultados preliminares das análises indicaram alterações semelhantes às descritas por grupos de pesquisadores da China em quatro artigos publicados nas últimas semanas, em que relatam os resultados de séries de autópsias de entre três e quatro pacientes diagnosticados com a doença.

"Há um interesse grande da comunidade médica brasileira nos dados que estamos produzindo porque podem dar respostas mais imediatas para perguntas como quais os impactos causados pelo vírus no pulmão", afirma.

Lesões extensas e múltiplas

As análises feitas pelos pesquisadores da FM-USP corroboram a constatação de que a morte pela COVID-19 é causada por insuficiência respiratória em função de lesões extensas e severas causadas pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, em múltiplas áreas dos pulmões – a síndrome respiratória aguda grave ou síndrome do desconforto respiratório agudo com lesão difusa do tecido pulmonar.

A ação do vírus é predominantemente nas células epiteliais, que revestem os alvéolos pulmonares, participam do processo de troca gasosa – de gás carbônico por oxigênio – e são alteradas ao serem infectadas pelo vírus.

A perda dessas células epiteliais causa uma extensa lesão nos alvéolos pulmonares (bolsas microscópicas nas quais ocorrem as trocas gasosas), denominada dano alveolar difuso. Esse dano compromete a troca gasosa em uma área muito expressiva do pulmão, reduzindo a oxigenação dos tecidos e levando à insuficiência respiratória.

"Observamos que o vírus infecta todo o trato respiratório, mas causa maiores danos nos alvéolos pulmonares", aponta Dolhnikoff.

Nos pacientes que desenvolvem a forma mais agressiva da doença, as lesões são muito semelhantes às que ocorrem na síndrome respiratória aguda grave (SARS) e na síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), ambas causadas por outros tipos de coronavírus, constataram os pesquisadores.

"Analisando as tomografias percebemos que algumas regiões do pulmão são mais afetadas, como as posteriores, e que a infecção compromete, pelo menos, metade do órgão", afirma.

Os pesquisadores também observaram, em um dos casos, pequenos focos de hemorragia na microcirculação pulmonar, associados com microtrombos.

"Esse fenômeno certamente está associado a distúrbios de coagulação já descritos em pacientes que morreram em decorrência da COVID-19", diz Dolhnikoff.

Pneumonia bacteriana

Outra pergunta que os pesquisadores querem tentar responder por meio da correlação das análises dos tecidos com os dados clínicos e de tomografias é se as pneumonias bacterianas secundárias que podem acometer os pacientes em estado grave e complicar o quadro clínico têm relação com o tempo de ventilação a que foram submetidos.

As análises dos quatro primeiros casos mostraram que dois pacientes foram acometidos por uma grave pneumonia bacteriana após a infecção viral. Essa informação foi imediatamente comunicada às equipes médicas.

"É natural que uma infecção viral desencadeie uma pneumonia bacteriana. Mas, no tratamento desses casos graves, essas infecções bacterianas precisam ser rapidamente identificadas e tratadas com antibióticos", ressalta Dolhnikoff.

A ocorrência de duas pneumonias juntas – a viral e a bacteriana – causa sérios danos tanto locais, no pulmão, como sistêmicos, uma vez que começam a circular pelo corpo e lesar outros órgãos.

"A infecção bacteriana tem um impacto enorme na função pulmonar e repercute em outros órgãos, resultando em quadro de sepse [falência múltipla de órgãos] que culmina na morte do paciente", explica Dolhnikoff.

Os pesquisadores não observaram, até o momento, alterações agudas causadas pelo vírus em outros órgãos. As alterações identificadas foram relacionadas à própria sepse ou às doenças preexistentes dos pacientes, como alterações crônicas renais e no coração, relacionadas a hipertensão e isquemia, e acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática) associada a diabetes e obesidade.

Mas, uma vez que dados da literatura médica sugerem que a infecção pelo novo coronavírus não se restringe ao pulmão, com evidências de que é excretado pelas fezes e urina e causa perda de olfato e do paladar, a ideia é analisar o efeito viral em outros órgãos por meio de materiais coletados do coração, rins, fígado, baço, cérebro, medula óssea, músculo esquelético, mucosa nasal e oral.

"A ideia é criar também um biorrepositório de tecidos que possam ser estudados por meio de técnicas avançadas de biologia molecular para identificar possíveis alvos terapêuticos para combater a doença", diz Paulo Saldiva, professor da FMUSP e um dos pesquisadores participantes do projeto.

Fonte: Elton Alisson | Agência FAPESP


Pesquisadores se unem em força-tarefa para combate ao coronavírus.

Pesquisadores da Unicamp reúnem equipe, insumos e equipamentos para realizar testes da COVID-19, entender a ação da doença e testar fármacos contra o SARS-COV-2; impressoras 3D fabricarão peças para respiradores e equipamentos de proteção para profissionais de saúde (foto: Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes/ Liana Coll/Unicamp)

Um grupo de pesquisadores e servidores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reuniu equipamentos, insumos e voluntários para a realização de testes do novo coronavírus em Campinas. Além disso, eles estudam novos métodos de detecção, a ação do vírus no organismo e fármacos que possam atuar contra a COVID-19.

Os pesquisadores buscam ainda garantir a manutenção de aparelhos médicos necessários neste momento e a fabricação de peças e equipamentos de proteção individual, por meio de impressão 3D, para profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à epidemia.

Os recursos vêm de projetos de pesquisa em andamento – financiados por agências de fomento como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a FAPESP –, da própria Unicamp e também de doações de empresas, pessoas físicas e do Ministério Público do Trabalho (MPT) .

José Luiz Proença Módena, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (LEVE), tem entre suas atribuições a ampliação da capacidade do Laboratório de Patologia Clínica (LPC) do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp em realizar testes diagnósticos.

O LPC, coordenado por Magnun Nueldo Nunes dos Santos, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, está na fase final do processo de certificação junto ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, para se adequar às normas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Com isso, os testes realizados na Unicamp não precisarão de contraprova na capital paulista.

Módena replicou as primeiras amostras do RNA do vírus para serem usadas como controle positivo nos testes diagnósticos. As amostras do vírus foram obtidas junto a Edison Luiz Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e coordenador do grupo de pesquisadores que isolou e cultivou o vírus obtido dos dois primeiros pacientes infectados do Brasil, além de colaborar com a produção de reagentes para diagnóstico e dos ensaios com virais (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/32692/).

"Com esse material, pudemos padronizar e implementar o teste diagnóstico no Hospital de Clínicas da Unicamp. Isso agora está sendo escalonado, com o objetivo de oferecer testes em larga escala para a região de Campinas, sendo que a chegada dos insumos nos próximos dias nos permitirá testar um grande número de pacientes", diz Módena, que coordena o projeto "Patogênese e neurovirulência de vírus emergentes no Brasil", financiado pela FAPESP.

Testes

Para realizar tantos testes, são necessários não só os insumos de laboratório, mas equipamentos como termocicladores, centrífugas e máquinas de PCR em tempo real, além de pessoal treinado para operá-los. Por isso, assim que obtiveram as amostras do vírus, a preocupação dos pesquisadores foi ter mais dessas máquinas e equipe capacitada para realizar os testes.

Alessandro dos Santos Farias, professor do IB-Unicamp, foi um dos pesquisadores que organizaram um mutirão para reunir equipamentos e treinar os profissionais do HC e voluntários.

"Em outros países, houve problema de falta de gente treinada para fazer os testes. Na nossa rotina de pesquisa, porém, esse tipo de reação é algo que fazemos com bastante frequência e as máquinas estão disponíveis em muitos laboratórios. Fizemos então um chamado à comunidade e conseguimos equipamentos e voluntários", diz Farias, coordenador de um Auxílio à Pesquisa Regular  e de outro Auxílio à Pesquisa no âmbito do Programa Equipamentos Multiusuários, apoiados pela Fundação.

Primeiramente, estão sendo treinados os profissionais do próprio LPC e serão usados quatro aparelhos de PCR em tempo real (capazes de identificar o material genético do vírus nas amostras), que analisam simultaneamente 96 amostras cada um. Pelo menos outras quatro unidades desses aparelhos servirão de backup. Se for necessário aumentar a quantidade de testes, já há outros PCRs disponíveis e cerca de 400 voluntários, a grande maioria com experiência em biologia molecular, como professores, servidores e alunos de pós-graduação da universidade.

 "Mais de 80% dos voluntários têm experiência em biologia molecular, o que mostra a importância do financiamento público não só para montar um parque de equipamentos desse tipo como para a capacitação de recursos humanos especializados, que agora podem atender a uma demanda urgente da sociedade", diz Marcelo Mori, professor do IB-Unicamp, responsável por Projeto Temático apoiado pela FAPESP.

Além de tentar entender por que idosos são mais suscetíveis à COVID-19, Mori faz a articulação entre o IB, o HC, a Reitoria da Unicamp e financiadores da iniciativa, como o Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (FAEPEX) da universidade, e empresas e pessoas físicas que queiram fazer doações para a compra de insumos e equipamentos.

Compreensão do vírus

A realização de testes para diagnóstico do novo coronavírus é apenas uma das frentes da força-tarefa. O laboratório comandado por Módena – único com nível de biossegurança 3 na região, em uma escala que vai até 4 – vai realizar a caracterização do vírus presente em pacientes que testarem positivo para o SARS-COV-2 em Campinas.

"O objetivo é entender como está a circulação do vírus aqui, as diferenças em relação ao de São Paulo e como isso pode impactar o quadro clínico do paciente", diz o pesquisador.

O trabalho será realizado em parceria com o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), apoiado pela FAPESP e coordenado por Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP.

Sabino comandou a equipe que sequenciou o genoma dos vírus nos primeiros casos da COVID-19 no Brasil (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/32637/).

A caracterização do vírus conta ainda com a colaboração de William Marciel de Souza, que realiza estágio de pós-doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP com bolsa da FAPESP, vinculada a projeto coordenado por Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da FMRP-USP.

Outra medida importante, que terá apoio do laboratório de Módena, será o monitoramento da carga viral dos pacientes graves internados no HC. A informação é essencial para saber quando liberar os pacientes e disponibilizar os leitos.

As amostras obtidas vão proporcionar ainda a análise dos chamados mediadores inflamatórios que o organismo produz quando em contato com o novo coronavírus. "Além das comorbidades, será possível entender melhor o que diferencia a resposta de um paciente que evolui para um quadro grave de outro, da mesma faixa etária, que evolui bem, por exemplo", explica o pesquisador.

Medicamentos

Módena colabora ainda com grupos que buscam fármacos já disponíveis no mercado com potencial de ação contra a COVID-19, como o de pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que atualmente testa a ação de cinco fármacos em uma das enzimas essenciais para o vírus (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/32837/).

Outro grupo com essa missão faz parte do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e coordenado por Glaucius Oliva, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

Outras moléculas que serão testadas pela equipe do pesquisador serão fornecidas pelo Centro de Química Medicinal (CQMED), da Unicamp, também apoiado pela FAPESP.

"A ideia é encontrar fármacos que já se mostraram seguros para humanos no tratamento de outras doenças e que possam ter efeito contra a COVID-19", explica Módena.

Impressão 3D de EPI

Uma outra frente da força-tarefa se dedica ao conserto de aparelhos hospitalares, inclusive respiradores, e à produção de peças de reposição e equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde.

O Centro de Engenharia Biomédica (CEB), coordenado por Leonardo Abdala Elias, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, dará suporte e fará manutenção e recuperação não só de respiradores artificiais como de monitores multiparamétricos, bombas de infusão e cardioversores.

O Laboratório de Biofabricação (Biofabris), por sua vez, coordenado por Rubens Maciel Filho, recebeu doações do Ministério Público do Trabalho para a compra de polímeros para a produção, por meio de impressão 3D, do chamado face shield, um protetor facial transparente que protege todo o rosto do profissional de saúde, aumentando a proteção. As impressoras 3D localizadas no laboratório podem ainda imprimir peças de reposição para equipamentos hospitalares.

"Além de recuperar equipamentos que não estão operando, com essa tecnologia é possível substituir peças que, muitas vezes, são importadas e por isso têm alto custo e demoram a chegar. Com a impressão 3D, fabricamos algumas peças rapidamente, com bastante precisão, e fazemos a substituição", diz Maciel, que coordena ainda o Centro de Inovação em Novas Energias (CINE), um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE), constituído pela FAPESP em parceria com a Shell.

O Biofabris pode fabricar ainda moldes para máscaras cirúrgicas, que serão fornecidos para empresas que tenham certificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fabricá-las.


Fonte: André Julião | Agência FAPESP


Déficit habitacional é obstáculo para isolamento vertical, dizem pesquisadores.

Trabalho do Centro de Estudo da Metrópole mostra que, nas faixas mais pobres da população, não é viável separar os grupos de risco dos demais moradores. O problema afeta principalmente a região Sudeste, com a Região Metropolitana de São Paulo à frente (Paraisópolis, São Paulo. Foto: Vilar Rodrigo/Wikimedia Commons



No contexto da pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), o chamado "isolamento vertical" – que consiste em impor quarentena apenas aos grupos de risco (pessoas com mais de 60 anos e portadores de doenças crônicas, entre outros) e liberar o resto da população para circular livremente – tem sido contraindicado por autoridades de saúde do mundo todo.

Em um país com alto percentual de pobreza e infraestrutura deficiente como o Brasil, essa suposta opção torna-se ainda mais inadequada, pois, nas faixas de baixa renda, é impossível separar os grupos de risco. "Idosos e portadores de doenças crônicas convivem com os outros membros da família e até com outras famílias, em espaços apertados, muitas vezes dormindo no mesmo quarto", diz à Agência FAPESP a pesquisadora Marta Arretche, professora titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.

Adensamento excessivo (definido como o compartilhamento do mesmo dormitório por mais de três pessoas) e coabitação (compartilhamento da mesma moradia por mais de uma família) caracterizam parte de um déficit habitacional que inviabiliza qualquer proposta de "isolamento vertical".

Não existem dados atualizados, porque o último Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi feito em 2010. E o Censo 2020 teve que ser adiado para o ano que vem, exatamente em função da pandemia. Mas estudo da Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, produzido com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), oferece um cenário aproximado, com números de 2015.

"Esse levantamento indicava que havia, naquele ano, um déficit absoluto de 6.356.000 habitações no Brasil. O adensamento excessivo respondia por 5,2% do déficit – ou seja, por 330.512 habitações. E a coabitação, por 29,9% do déficit – isto é, por 1.900.444 moradias", informa o pesquisador Eduardo Marques, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), que integra o CEM.

A situação é ainda mais grave nas favelas, que, segundo o Censo 2010, abrigavam naquela data cerca de 11,4 milhões de pessoas. Mas o que a Fundação João Pinheiro classificou como déficit habitacional não se restringe às favelas, nem necessariamente inclui todos os edifícios existentes nelas, alguns com melhores condições de habitabilidade. Há déficit também em bairros de baixa renda não favelados. E até mesmo em enclaves de população pobre em bairros de classes média ou alta.

"Ao contrário do que se poderia supor, o maior déficit ocorre na região mais rica do Brasil: a Sudeste, onde a maioria dos números já detectados da doença se localiza. As regiões metropolitanas que lideram o ranking são as de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com déficits aproximados de 640 mil, 340 mil e 159 mil unidades habitacionais, respectivamente. Realizar isolamento vertical nesse contexto é praticamente impossível", afirma Marques.


Fonte: José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Pesquisadores buscam teste capaz de prever risco de paciente com COVID-19 evoluir para quadro grave.

Imagem de microscopia eletrônica mostra o vírus SARS-CoV-2 (amarelo) isolado de um paciente emergindo da superfície de células (azul/rosa) cultivadas em laboratório (imagem: NIAD/HIH)



Pesquisadores das universidades de Campinas (Unicamp) e de São Paulo (USP) uniram esforços para desenvolver um teste rápido e de baixo custo para diagnosticar os casos de COVID-19 e, além disso, identificar os pacientes com risco de evoluir para quadros de insuficiência respiratória.

O método se baseia na análise do padrão de moléculas encontrado em fluidos corporais e tem custo estimado entre R$ 40 e R$ 45 por paciente.

"Já enviamos o processo de aprovação na Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, órgão que regulamenta estudos clínicos no Brasil], e já estamos fazendo análises prévias e processando os dados. Tudo ao mesmo tempo, em virtude da situação", conta Rodrigo Ramos Catharino, coordenador do Laboratório Innovare de Biomarcadores da Unicamp, à Agência FAPESP.

O pesquisador desenvolve uma linha de pesquisa que combina ferramentas de metabolômica (estudo do conjunto de metabólitos em amostras biológicas) e inteligência artificial (aprendizado de máquina) para buscar biomarcadores que ajudem no diagnóstico e na avaliação do prognóstico de diversas doenças, entre elas síndrome metabólica, infecções virais e fibrose cística.

As amostras dos pacientes serão inicialmente analisadas em um espectrômetro de massas (uma espécie de balança molecular), equipamento capaz de revelar todos os metabólitos presentes no fluido corporal. Esse conjunto de moléculas, por sua vez, indica aos cientistas os diversos processos metabólicos ativos no organismo.

O passo seguinte, que será feito no Instituto de Computação da Unicamp, sob a coordenação do professor Anderson Rezende Rocha, é usar ferramentas de aprendizado de máquinas para analisar tanto os resultados das amostras de indivíduos com COVID-19 quanto das amostras de pessoas saudáveis, que servirão de controle. Espera-se assim "treinar" o programa de computador para reconhecer o padrão saudável, o padrão do paciente infectado pelo novo coronavírus e também o padrão associado aos casos graves da doença.

Coleta de material

A captação dos voluntários e a coleta de amostras estão sob a coordenação do professor colaborador da Faculdade de Medicina (FM) da USP Rinaldo Focaccia Siciliano, médico assistente da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas (HC-FM-USP) e da Unidade de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto do Coração (InCor) .

À Agência FAPESP, Siciliano explica que a seleção dos participantes será feita entre os pacientes admitidos no HC-FM-USP com sintomas de síndrome gripal, que incluem febre, tosse, dor de garganta e coriza. Também serão incluídos pacientes atendidos no Hospital Municipal da Lapa com os mesmos sintomas.

"O objetivo é abranger uma população heterogênea, pois o HC é um hospital terciário [em que chegam pacientes graves encaminhados por prestadores de serviços primários e secundários] e o Hospital Municipal da Lapa é um pronto socorro de portas abertas, recebe casos de todos os tipos", diz o médico.

Segundo Siciliano, serão coletadas amostras de três grupos diferentes: pacientes com diagnóstico confirmado de COVID-19 pelas técnicas moleculares hoje usadas na rotina, pacientes com diagnóstico confirmado de influenza (vírus da gripe) e pacientes com sintomas gripais e resultado negativo para os dois patógenos.

"Estimamos ser necessário coletar 50 amostras de cada grupo e mais 50 de pessoas saudáveis, que servirão de controle. Acreditamos que, por causa da pandemia, em pouco tempo conseguiremos finalizar a fase de coleta", afirma Siciliano.

Na avaliação do pesquisador, a vantagem do teste rápido é poder tirar o paciente de circulação, impedindo que transmita o vírus para mais pessoas. "Além disso, se pudermos predizer os casos de maior risco, poderemos oferecer um nível de atenção mais adequado", afirma.

Segundo Catharino, depois que o conjunto de procedimentos e o software estiverem prontos e validados, será possível fazer mais de mil testes em um único dia. "Além de mais rápido que o método hoje usado, seria mais barato e ofereceria mais informações para ajudar o profissional de saúde no momento de decisão por hospitalizações e tratamentos", diz.

A professora da FM-USP Ester Sabino, uma das idealizadoras do estudo, será responsável pelo armazenamento do material biológico coletado no Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP.

Já o professor da FM-USP José Carlos Nicolau, que dirige a Unidade Clínica de Coronariopatia Aguda do InCor, está à frente de outro objetivo do projeto: entender de que modo o novo coronavírus altera a capacidade de agregação das plaquetas e a coagulação sanguínea, bem como as implicações clínicas desses processos.

"Pretendemos olhar o que ocorre com a agregação de plaquetas e com outros marcadores de coagulação do sangue. A ideia é comparar essas variáveis nos grupos acima citados [pacientes com desconforto respiratório hospitalizados com COVID-19, com influenza, sem nenhum dos dois e grupo controle] avaliar as diferenças entre eles. Os resultados podem ter implicações prognósticas e terapêuticas. Se eu noto que um determinado parâmetro influencia negativamente o quadro do paciente, posso tentar intervir bloqueando esse processo, no sentido de melhorar a evolução", conta Nicolau.


Por Karina Toledo | Agência FAPESP

Pesquisadores testam potencial de medicamentos contra o novo coronavírus.

Grupo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais analisa em cultura de células a ação antiviral de drogas já disponíveis no mercado (imagem: Em azul, composto ativo de medicamento já disponível nas farmácias, interage com proteína fundamental para o ciclo de vida do corona vírus, em roxo/LNBio)

Um grupo de pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNBio-CNPEM), em Campinas, está buscando um novo tratamento para a COVID-19, causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2. A estratégia, conhecida como reposicionamento de fármacos, consiste em testar a ação antiviral de drogas já disponíveis no mercado para outras doenças.

Os cinco primeiros fármacos selecionados têm como alvo uma das proteases do vírus, enzima essencial em seu ciclo de vida. Posteriormente, o grupo vai testar outros fármacos em mais quatro alvos moleculares com diferentes funções no novo coronavírus.

O grupo faz parte de uma rede criada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), que articula pesquisas sobre coronavírus em diversos laboratórios pelo Brasil, a fim de encontrar soluções para a pandemia. Alguns dos pesquisadores envolvidos atuam em projetos financiados pela FAPESP.

"Na RedeVírus MCTIC, cada grupo participante tem uma missão. A nossa é o reposicionamento de fármacos. Assim que tivermos os resultados, eles serão imediatamente encaminhados para outro grupo, que fará os testes em pacientes", diz Daniela Barretto Barbosa Trivella coordenadora científica do LNBio e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo.

"A protease que temos como alvo é responsável por um processo que torna o vírus ativo, ou seja, capaz de infectar as células e se multiplicar", explica. Trivella coordena um projeto, financiado pela FAPESP e conduzido em colaboração com a Universidade de Nottingham (Reino Unido), cujo objetivo é elucidar o funcionamento de receptores celulares considerados potenciais alvos terapêuticos.

"Um medicamento novo pode demorar até 15 anos para chegar ao mercado. Por isso, optamos por essa estratégia, que é a melhor opção no curto prazo. A ideia é usar fármacos já aprovados para uma determinada doença no tratamento de outra. É o que aconteceu com a hidroxicloroquina, indicada para malária, mas usada experimentalmente contra o coronavírus", diz Eduardo Pagani, gestor de fármacos do LNBio.

Pagani explica que a vantagem dessa estratégia é que, se forem encontrados fármacos com potencial para tratar a COVID-19, a eficácia de seu uso no combate a esta doença poderá ser testada diretamente nos doentes, uma vez que os órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já possuem todas as informações de segurança dessas drogas, já testadas em humanos antes de entrarem no mercado.

Os pesquisadores alertam, porém, que ainda que esses fármacos estejam disponíveis nas farmácias, nenhum foi testado em humanos portadores do novo coronavírus. Por isso, é fundamental que sejam conhecidos os efeitos nesse contexto, antes que possam ser administrados em pacientes com a COVID-19.

Cinco candidatas

Para chegar às primeiras cinco drogas potencialmente eficazes contra o SARS-CoV-2, o grupo realizou uma triagem, por meio de simulações computacionais, de 2 mil drogas já aprovadas para outros usos terapêuticos pela FDA (Food and Frug Administration), agência do governo dos Estados Unidos que regula alimentos e drogas.

"Durante mais de um mês rodamos simulações que exigem grande capacidade computacional. Nelas, a molécula precisava primeiro se encaixar no chamado sítio catalítico da protease e depois permanecer nesse local após uma simulação de movimento das moléculas. As que se mantiveram conectadas seguiram no protocolo. As outras foram descartadas", diz Paulo Sergio Lopes de Oliveira, pesquisador do LNBio responsável pela parte computacional da pesquisa.

Oliveira coordena o projeto "Detecção e caracterização de cavidades proteicas através de computação paralela e descritores moleculares", financiado pela FAPESP.

Além dos equipamentos e recursos do projeto atual, sua equipe utilizou computadores de um Auxílio à Pesquisa, na modalidade Equipamentos Multiusuários, coordenado por Wilson Araújo da Silva Junior, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

A simulação resultou em 16 fármacos com potencial terapêutico contra o vírus. Destes, foram selecionados cinco para serem testados em células infectadas com o SARS-CoV-2. Entre os critérios para a seleção estava a disponibilidade dessas drogas no mercado brasileiro a um custo relativamente baixo.

Biossegurança

Os testes da ação dos medicamentos em células infectadas são liderados por Rafael Elias Marques Pereira Silva, pesquisador do LNBio e coordenador de dois projetos financiados pela FAPESP: o primeiro sobre o potencial terapêutica de quimiocinas e o segundo sobre infecções por vírus. 

Os testes são realizados no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (LEVE), no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). O LEVE é liderado por José Luiz Proença Módena, professor do IB-Unicamp e coordenador do projeto "Patogênese e neurovirulência de vírus emergentes no Brasil", também financiado pela FAPESP. O laboratório possui nível de biossegurança 3 (NB3), em uma escala que vai até 4.

"Por conta da segurança, os testes são bastante exaustivos, têm de ser feitos quase um a um. Por isso a seleção prévia das drogas é importante", diz Trivella.

Participa ainda das pesquisas Marcio Chaim Bajgelman, coordenador do Laboratório de Vetores Virais (LVV) do LNBio. O pesquisador trabalha no desenvolvimento de ensaios de teste de fármacos, em que será possível acompanhar a capacidade de entrada do fármaco nas células humanas. Bajgelman coordena projeto apoiado pela Fundação.

Os pesquisadores agora preparam mais quatro alvos moleculares presentes no vírus para serem testados. Os chamados bioensaios serão conduzidos por Artur Torres Cordeiro, pesquisador no LNBio, em projeto também financiado pela FAPESP.

Para cada um dos novos alvos, serão feitas novamente as simulações com as 2 mil drogas já existentes. A estimativa é chegar, no total, a 60 fármacos candidatos para os testes in vitro com os alvos isolados e com o vírus. Entre um e três serão indicados para testes clínicos.

Encontrar mais de um fármaco é estratégico para que o vírus não desenvolva resistência. Em tratamentos antivirais como o do HIV, por exemplo, são usadas diferentes combinações de fármacos que atacam diferentes alvos moleculares do vírus.

"As drogas encontradas nessa pesquisa poderiam ser combinadas entre si ou mesmo à hidroxicloroquina, por exemplo, a fim de aumentar as chances de cura", diz Pagani.

Os testes com os primeiros cinco candidatos já foram iniciados. Os resultados são esperados nas próximas três semanas.


Por André Julião | Agência FAPESP

Pesquisadora brasileira integra equipe que vai testar fármacos contra o novo coronavírus na Itália



A bióloga Rafaela Rosa-Ribeiro é pós-doutoranda no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, onde estuda – com apoio da FAPESP – vias de morte celular induzidas pelo vírus zika em vários tipos de célula. Em 2019, iniciou um estágio de pesquisa no Departamento de Doenças Infecciosas e Neurociência do Ospedalle San Rafaelle – hospital situado em Milão, na Itália. O projeto é supervisionado por Elisa Vicenzi, coordenadora do primeiro grupo italiano – e o segundo no mundo – que isolou o SARS-CoV, vírus que emergiu em 2002 na China, onde causou os primeiros casos de SARS, a síndrome respiratória aguda grave.

O SARS-CoV se disseminou por cerca de 30 países, infectou mais de 8 mil pessoas e causou cerca de 800 mortes. No entanto, desde 2004, nenhum novo caso de SARS foi relatado. Agora, diante da emergência de um novo coronavírus – o SARS-CoV-2, causador da COVID-19 – o grupo de Vicenzi está iniciando estudos voltados a testar fármacos que demonstraram em testes anteriores potencial para combater vírus respiratórios. Outra linha de investigação visa entender quais vias de sinalização são ativadas em células infectadas pelo SARS-CoV-2. Serão realizados experimentos com células humanas e também de morcegos, animais considerados reservatório de várias espécies de coronavírus e que não desenvolvem sintomas da infecção.

Em entrevista à Agência FAPESP, Rosa-Ribeiro apresentou um escopo dos projetos que serão conduzidos na Itália durantes as próximas semanas e contou como tem sido a experiência de lidar com a epidemia. Segundo o Repositório Oficial do Departamento de Proteção Civil italiano, foram confirmados, desde 24 de fevereiro, 27.980 casos de COVID-19 e 2.158 mortes. Cerca de 12.876 pessoas foram hospitalizadas e 1.851 precisaram de terapia intensiva. Somente entre os dias 15 e 16 de março foram 2.470 novos casos positivos.

Agência FAPESP – Você foi para a Itália desenvolver um projeto sobre o vírus zika, mas agora está envolvida também em estudos sobre o novo coronavírus. Os dois projetos serão conduzidos em paralelo?
Rafaela Rosa-Ribeiro – Sim, não pude deixar a oportunidade passar. Nosso grupo de pesquisa é pequeno. Somos cinco pessoas e os alunos não estão podendo vir ao hospital. Como pós-doutoranda estou dando suporte em tudo que posso. Acabei me envolvendo na idealização de alguns estudos sobre o novo coronavírus. Claro que a pesquisa sobre o zika é a minha prioridade, mas algumas facilities não estão funcionando e, então, será preciso aguardar tudo isso passar para dar continuidade aos experimentos. A Itália está realmente parada, é algo impressionante. Enquanto isso, vou aproveitar para mapear o máximo de informação possível sobre o novo coronavírus.

Agência FAPESP – Quais estudos estão sendo iniciados sobre o SARS-CoV-2?
Rosa-Ribeiro – São dois. Em parceria com empresas farmacêuticas vamos testar algumas drogas contra o vírus. Em outra frente, vamos avaliar in vitro como o vírus infecta macrófagos e monócitos, dois tipos de célula do sistema imunológico. Já estamos isolando vírus de diferentes pacientes para ter um estoque no laboratório. Em breve começaremos a isolar as células tanto de pessoas infectadas como de indivíduos saudáveis. Queremos ver qual resposta é ativada nessas células após a infecção. Como a expressão gênica se altera, quais citocinas [proteínas que atuam como sinalizadores do sistema imune] são liberadas. A ideia é mapear as vias de sinalização de morte celular acionadas pelo vírus. O meu projeto sobre o zika também tem como foco as vias de sinalização de morte celular.

Agência FAPESP – Por que é importante estudar as vias de sinalização de morte celular?
Rosa-Ribeiro – Para entender o mecanismo da doença e identificar alvos para possíveis intervenções. Quando ocorre a morte celular, a replicação do vírus é inibida. Precisamos saber se a célula consegue iniciar o processo de morte celular com facilidade ou se o vírus tem mecanismos para inibi-lo, como faz o vírus da herpes, por exemplo. Além disso, há vários tipos diferentes de morte celular. Algumas são 'silenciosas', como é o caso da apoptose. Outras causam o extravasamento do conteúdo celular e induzem uma forte reação inflamatória. Por um lado isso é ruim, pois causa dano ao tecido, mas por outro alerta o sistema imune, que manda mais células de defesa ao local. Ao entendermos o que acontece durante a infecção pelo novo coronavírus, podemos identificar vias de sinalização importantes de serem moduladas por um fármaco, por exemplo. Além disso, também vamos estudar o que ocorre quando o vírus infecta as células de morcego. Esses animais são reservatórios de várias espécies de coronavírus, mas não desenvolvem sintomas. Talvez isso ocorra porque as vias de sinalização ativadas pelo vírus nos morcegos são diferentes. É algo que queremos entender.

Agência FAPESP – O estudo com drogas será in vitro ou in vivo? Ambos serão conduzidos paralelamente?
Rosa-Ribeiro – Sim, infelizmente terá de ser feito tudo muito rapidamente. Todos os estudos serão in vitro, ainda não temos planos de usar modelos animais. Existem algumas drogas que mostraram potencial para combater vírus respiratórios, entre eles o causador da SARS. Minha supervisora chegou a participar de alguns desses estudos no passado, mas quando o SARS-CoV parou de circular os investimentos em pesquisa diminuíram. Agora temos de praticamente recomeçar do zero.

Agência FAPESP – Por que a Itália demorou para sequenciar os genomas virais dos pacientes infectados?
Rosa-Ribeiro – A Itália é um país ainda mais burocrático que o Brasil. Aqui não é permitido usar em pesquisa amostras coletadas para diagnóstico, mesmo se o paciente autorizar. Antes é preciso obter aprovação de um comitê de ética. As primeiras amostras da Itália ficaram concentradas em Roma, em uma instituição governamental responsável por fazer a contraprova dos casos positivos. Demorou para eles obterem autorização para fazer o sequenciamento. Além disso, essa instituição não tinha acesso à tecnologia que permite fazer o sequenciamento rápido, como foi feito no Brasil [leia mais em: agencia.fapesp.br/32637]. Eles sequenciaram pelo método tradicional, que é mais demorado. Agora já há cerca de cinco genomas sequenciados aqui na Itália.

Agência FAPESP – E com base nesses genomas é possível chegar a alguma conclusão?
Rosa-Ribeiro – Se olharmos todos os genomas sequenciados em conjunto, parece haver um cluster europeu – que reúne amostras da Itália, da Alemanha, da França, da Holanda e também as duas do Brasil [de pessoas infectadas na Europa] – um outro cluster chinês e um terceiro norte-americano. Mas são diferenças muito pequenas, nada capaz de alterar a capacidade do vírus de infectar células, por exemplo. Agora que já há transmissão comunitária no Brasil será preciso sequenciar mais amostras para ver como será o perfil do país.

Agência FAPESP – Já é possível traçar o histórico da epidemia na Itália?
Rosa-Ribeiro – Não. O paciente-zero – dentro dos primeiros casos de transmissão comunitária no país – não foi identificado. Sabemos que o paciente-um procurou ajuda em um hospital e, mesmo com sintomas, não foi submetido ao teste em um primeiro momento e foi liberado. Isso porque a orientação da OMS [Organização Mundial da Saúde] na época era testar apenas quem tivesse histórico de viagem a um país de risco ou de contato com pessoas que estiveram nesses países. Esse paciente foi atendido no início de fevereiro na cidade de Codogno [a cerca de 60 quilômetros de Milão]. Quando se identificou a transmissão comunitária, não foi feito um bloqueio rápido na região. As atividades foram parando aos poucos. Primeiro foram isoladas 11 cidades na região da Lombardia, isso foi na época do Carnaval. O restante da região norte manteve a rotina durante uma semana e meia. Recomendava-se apenas para as pessoas manterem distância de um metro uma das outras e ficarem em casa se estivessem com sintomas. Quando se optou por isolar toda a região norte a situação já estava bem complicada. No dia seguinte, todo o país entrou em isolamento. A recomendação que podemos dar com base nessa experiência é que, assim que um foco da doença for identificado, devem ser adotadas imediatamente medidas para diminuir a circulação de pessoas. Fechar escolas, universidades, bares, restaurantes, cancelar shows e eventos, evitar viagens e evitar o transporte público. Os sintomas serão brandos para 80% dos infectados, mas as pessoas precisam ter consciência que ao circular pela cidade ajudam a espalhar o vírus. Se muitas pessoas se infectarem em um curto período de tempo, a possibilidade de surgirem muitos casos severos simultaneamente aumenta e o sistema de saúde não vai dar conta. Lavar a mão e restringir a circulação de pessoas são as únicas medidas eficientes.

Agência FAPESP – Qual é a situação hoje dos hospitais italianos?
Rosa-Ribeiro – Aqui no Ospedale San Raffaele conseguiram doações para fazer uma ala nova, meio pré-fabricada, para alocar pacientes com COVID-19. Mas o sistema de saúde como um todo está sobrecarregado, principalmente na região norte. A taxa de letalidade no país está em 7,3%, pois somente os casos graves estão chegando aos hospitais. Os profissionais de saúde estão tendo de escolher quem tratar, pois não há equipamento de ventilação e UTIs [Unidades de Terapia Intensiva] suficientes para todos.

Agência FAPESP – Existe alguma expectativa sobre quanto tempo ainda deve durar o isolamento?
Rosa-Ribeiro – Quando fecharam toda a região norte falaram em um mês e já se passaram duas semanas. Mas há muitos médicos infectados e faltam equipes para atender os pacientes com COVID-19 e também os acidentados e os portadores de outras doenças. Até os residentes, que inicialmente foram dispensados para evitar a contaminação, foram recrutados. Hoje se sabe que o processo de entubar os pacientes em estado grave faz com que muitos aerossóis contendo o vírus se espalhem pelo hospital. Fomos aprendendo à medida que tudo foi acontecendo.

Agência FAPESP – Qual é o protocolo hoje?
Rosa-Ribeiro – Agora os pacientes infectados ficam em área isolada e todos que lidam com eles parecem astronautas. Devem tirar a roupa de proteção antes de circular por outras áreas do hospital. Todo mundo está de máscara, até secretárias, porteiros e também as pessoas nas ruas. Os laboratórios estão trabalhando apenas com 10% da força de trabalho. Hoje os testes só são aplicados em pessoas com sintomas severos para confirmar o diagnóstico antes da internação. Quem tem sintomas brandos é orientado a ficar em casa. Pode receber a visita do médico da família – um serviço oferecido pelo sistema público de saúde – ou receber orientação sobre qual remédio tomar para amenizar os sintomas.

Agência FAPESP – Já se fala sobre o que será feito depois que passar o pico da epidemia?
Rosa-Ribeiro – Por enquanto a preocupação ainda é apagar o incêndio, mas sabemos que o estrago vai ser grande. No Brasil há uma diferença de classe social exorbitante e as pessoas com menos condições muitas vezes não podem parar de trabalhar. Quem puder ficar em casa deve ficar. Já faz duas semanas que não vejo meus amigos e não tenho família aqui. Na primeira semana de isolamento passei cinco dias sem ver qualquer pessoa. É um clima bem pesado.




Karina Toledo | Agência FAPESP

Cientistas aliam nanotecnologia e produtos naturais para combater pragas agrícolas


O Brasil é uma das grandes potências agrícolas do mundo e também um dos líderes no uso de agrotóxicos. Se por um lado os defensivos permitem controlar pragas e aumentar a produtividade, por outro, contaminam a água, o solo e os alimentos, afetando indiretamente a saúde humana.

Em busca de alternativas mais sustentáveis, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Sorocaba têm apostado na combinação de nanotecnologia e produtos naturais. O tema foi abordado por Leonardo Fraceto, coordenador do Laboratório de Nanotecnologia Ambiental da Unesp, em palestra apresentada na FAPESP Week France.

"Existe uma demanda crescente por alimentos em todo o mundo e a nanotecnologia permite criar metodologias para aumentar a produção agrícola. Não me refiro a um aumento na área plantada e sim na eficiência produtiva", disse Fraceto.

Como explicou o pesquisador, o objetivo do grupo é pesquisar diferentes sistemas para encapsular agentes de controle de pragas, como agrotóxicos sintéticos ou inseticidas e repelentes de origem botânica. "Outra linha de pesquisa propõe o uso de agentes biológicos, como fungos e bactérias, encapsulados em micropartículas", disse.

No âmbito de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, o grupo da Unesp estuda os mecanismos de ação e a toxicidade das metodologias desenvolvidas.

De acordo com Fraceto, o uso de nanopartículas possibilita a entrega do composto ativo diretamente no local em que está a praga a ser combatida, reduzindo a quantidade de pesticida aplicada na lavoura, a toxicidade para a planta e, consequentemente, a contaminação ambiental. "A praga, por outro lado, recebe uma carga mais concentrada do ativo, o que permite diminuir o número de aplicações", disse.

O grupo desenvolveu, por exemplo, um sistema para encapsulamento da atrazina, um dos herbicidas mais vendidos no Brasil e já banido na União Europeia pela alta toxicidade.

"Nos testes em laboratório, a formulação em nanopartículas poliméricas foi mais eficiente para o controle de pragas do que a convencional. Conseguimos reduzir a dosagem necessária de 3 quilos para 300 gramas por hectare. Nosso próximo passo será avaliar a formulação em estudos de campo", disse o pesquisador.

Em outro trabalho, publicado na revista Pest Management Science, os cientistas misturaram três diferentes compostos botânicos – geraniol (encontrado no gerânio, no limão e na citronela, por exemplo), eugenol (presente no óleo de cravo) e cinamaldeído (do óleo de canela) – em nanocápsulas poliméricas feitas de zeína, uma proteína do milho.

"Somos uma equipe multidisciplinar e buscamos soluções satisfatórias tanto do ponto de vista ecológico como econômico. Elencamos algumas substâncias que julgamos interessantes para o manejo de pragas como a lagarta Helicoverpa [praga da soja], a lagarta-do-cartucho [do milho] e o ácaro-rajado [que ataca frutas, grãos e outras culturas], por exemplo", disse.

*O simpósio FAPESP Week France foi realizado entre os dias 21 e 27 de novembro, graças a uma parceria entre a FAPESP e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Leia outras notícias sobre o evento em www.fapesp.br/week2019/france.


Por Maria Fernanda Ziegler, de Paris | Agência FAPESP

Sarau na biblioteca.


Descolonizar pensamentos. Reconstruir os padrões a partir de uma narrativa que possibilita a emancipação do povo preto. Neste sarau os poetas e MC's compartilham poesias autorais e de autores e autoras negrxs como Maurinete Lima, Conceição Evaristo, Esmeraldo Ribeiro e Adbias do Nascimentos.

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Como se prevenir?

1 - Dieta rica em frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais e com menos gordura;
2 - Consumir tomate;
3 - Pelo menos 30 minutos diários de atividade física;
4 - Manter o peso adequado à altura;
5 - Diminuir o consumo de álcool;
6 - Não fumar;
7 - Homens a partir dos 40 anos devem realizar exames de rotina;

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